By Graça Marinho

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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os Incríveis - Uma Trajetória Inesquecível

Por: Wladimir Soares

Na festa de arromba cantada por Erasmo Carlos em 1965 aparece o conjunto The Clevers tocando no terraço enquanto os Jet Blacks tocavam no salão. The Clevers era um conjunto de rock instrumental nascido em 1962 e criado pelos então garotos Manito, Netinho, Mingo, Risonho e Neno.  Numa época em que os jovens ouviam Elvis Presley, Paul Anka ou o brasileiro Roni Cord, com muito rock abolerado, o conjunto The Clevers conseguiu fazer sucesso com algo que parecia improvável: a gravação de El Relicário, um clássico do cancioneiro espanhol em ritmo de twist. O nome que consagrou o conjunto que até hoje leva público as teatros, clubes e festas só surgiu dois anos depois: em 1964 o The Clevers adotou o nome brasileiro de Os Incriveis depois de uma excursão por 35 cidades italianas acompanhando Rita Pavone, a grande estrela do rock dos anos 60.

Mas, foi ainda com o nome de The Clevers que eles começaram a fazer história. Antes de Roberto e Erasmo “estourarem” com o programa Jovem Guarda, o conjunto fazia na mesma TV Record , em 1963 , o “Clevers Shows”, uma tentativa que a TV fazia para manter o público que ficou órfão com a aposentadoria precoce de Celly Campello e seu “Crush em HI FI”. Foi nesse programa de televisão que The Clevers lançou o sucesso O Milionário, música que até hoje é muito executada.

Os Incríveis (foto: Paulo Mello)
Sempre à frente de seu tempo, o conjunto Os  Incríveis  fez outra façanha em 1964: durante nove meses participou do programa “ Sábados Continuados” numa televisão de Buenos Aires. E confirmando o sucesso internacional que já havia acontecido na Itália, os brasileiros gravam um LP em espanhol com o título “Los Increibles”.

Na volta ao Brasil, em 1965, participam do começo do programa Jovem Guarda e, quando Nenê entra no lugar de Neno, o grupo vai para TV Excelsior apresentar seu novo programa. O peso desse programa pode ser medido pela qualidade de seus sucessivos diretores: Brancato Jr, Carlos Manga, Carlos Imperial e Abelardo Figueiredo. Os temas internacionais que o conjunto tocava revelavam , também , a vontade de estar na estrada . Era difícil manter o conjunto em São Paulo. Em 1966, lá foram eles de novo para a Europa animando os passageiros de um navio que fazia cruzeiros pelo Mediterrâneo. Foi nesse ano que Os Incríveis gravaram outro grande sucesso: O Vendedor de Bananas, do, então, Jorge Ben. Na volta ao Brasil, o conjunto ancorou na TV Tupi mas, as amarras eram frouxas e lá foram nossos meninos para o Japão . Fizeram shows e até gravaram um disco cantando em japonês.

Apesar do sucesso enorme, o grupo enfrentou seu primeiro problema com a mídia ao gravar; em 1969, o hino Eu Te Amo Meu Brasil. Eram os anos de chumbo da ditadura brasileira e a patrulha ideológica reprovou com veemência o triunfalismo dessa marchinha ingênua da dupla, Dom e Ravel. Quando o conjunto completou dez anos, em 1972, os músicos se separaram, buscando novos horizontes e novos sons. Netinho por exemplo, criou o grupo Casa das Máquina, de memorável trajetória, e Manito continuou entusiasmando o público com seu sax rasgado.

A primeira fase de existência de Os Incríveis durou dez anos.  A primeira separação também durou dez anos. Em 1982, a banda voltava a se reunir e gravou um LP de reencontro. Não passou disso. E vieram outros dez anos de ostracismo até que a estagnação da música popular brasileira abriu espaço para os revivals. Já que o presente não estava bom, então, “viva a nostalgia”. Cansados de mais dez anos de ócio, o grupo se reúne para um sensacional retorno e lota a casa que era fashion na época, o Aeroanta de São Paulo. Mas ainda não estava na hora do eterno retorno. Mingo veio a falecer e Netinho passou por uma experiência traumatizante que, por isso mesmo, acabou dando um novo impulso à sua carreira. Há mais de 15 anos ele teve um câncer nas cordas vocais, fez uma operação bem sucedida, ficou com a voz afônica e passou a ajudar instituições que cuidam de crianças carentes portadores de câncer. Esse renascimento deu novo impulso à carreira dos Incríveis. Em 1996, a casa de espetáculos Tom Brasil, em São Paulo, apresentou o show “Jovem Guarda – Novo de Novo” e durante quatro semanas os músicos que faziam sucesso nos anos 60 receberam nova consagração. Lá estavam Os Incríveis ao lado de Wanderléa, Eduardo Araújo, Martinha, Golden Boys, num show que rendeu 2 CDs e um vídeo , sem contar que a coletânea  em CD “ 30 anos de Jovem Guarda”  fez com que a música “ Era um garoto que como eu amava os Beatles eos Rolling Stones” voltasse ás paradas de sucesso, com mais de 150 mil discos vendidos.

Paralelamente a esse sucesso de palco, Netinho vem se dedicando à nobre causa de ajudar o CACC - Centro de Apoio à Criança Carente com Câncer. Para tanto, Netinho repetiu em 1999, a festa de arromba de Erasmo Carlos e reuniu os amigos dos anos 60 para gravar o CD “ Deus Abençoe as Crianças” com músicas feitas especialmente para o disco . A canção título pode ser considerada uma espécie de “We’re the World” jovenguardista e contou com a participação de 32 dos mais conhecidos cantores da atualidade: Elba Ramalho, Fábio Júnior, Ronnie Von, Wanderléa, Guilherme Arantes, Sérgio Reis e Jair Rodrigues, entre outros. O objetivo principal: arrecadar fundos para o CACC. O disco é um sucesso e continua sendo vendido.

Às vésperas de completar 40 anos de existência, o conjunto Os Incríveis lançou seu primeiro disco gravado no formato de CD pela Continental East West, o CD Os Incríveis Ao Vivo, preenchendo também uma outra lacuna: fazia 20 anos que esse conjunto precursor da Jovem Guarda não produzia um disco novo.

O disco foi gravado numa noite histórica. Era 12 de julho de 2000 e o conjunto , aproveitando a boa maré trazida pela revival da Jovem Guarda , conseguiu lotar o teatro Politheama, em Jundiaí, com um público que também amava os Beatles e os Rolling Stones e teve a sorte de acompanhar de longe a guerra do Vietnã que matou o personagem da música de maior sucesso dos Incríveis: “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rollings Stones”. A energia que pulsou entre músicos e platéia foi gravado e resultou neste surpreendente CD  . E surpreendente por vários motivos. Primeiro, porque o conjunto que nasceu em 1962 não perdeu seu vigor nem seu estilo. Em segundo lugar, pode ser apontado o fato de o enorme Politheama de Jundiaí, em São Paulo estar lotado. Afinal, um país que é sempre acusado de não ter memória, de não preservar seu passado, conseguiu resgatar um conjunto que foi bastante significativo no seu contexto e continua acariciando corações e mentes com a nostalgia de seu repertório e com a ingenuidade do tempo em que se consagrou. Os aplausos que acompanham o final de cada faixa do CD Os Incríveis ao vivo, demonstram a satisfação que o público teve ao reencontrar seus ídolos e suas canções .

Com a atual formação, o conjunto Os Incríveis tem cumprido uma extensa lista de shows por todo o Brasil, reconquistando o carinho dos antigos fãs e obtendo um grande sucesso junto ao público jovem, que está descobrindo a contagiante musicalidade produzida por Netinho, Sandro Haick, Leandro e Wilson Teixeira. 

Mas, daqui prá frente, tudo vai ser diferente, Os Incríveis já começaram a escrever as novas páginas da biografia de um conjunto que está comemorando 50 anos de existência e que continua na memória de toda uma geração que há 50 anos vibra com o som de Netinho, e agora, Leandro, Sandro e Wilson Teixeira.

Os garotos que amavam Os Incríveis dos anos 60 vão poder participar da nova festa, com o lançamento do CD Novos Tempos, com as músicas novas, o primeiro disco com a atual formação.

Eles são mesmo Incríveis.

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Fonte: Este belíssimo texto foi escrito pelo meu querido amigo Wladimir Soares, a quem admiro e amo muito.

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Aldeia da Serra e San Diego/USA